Por Que o Brasil Virou Referência Mundial em Biosseguridade Avícola

Enquanto países europeus e asiáticos convivem com surtos recorrentes de influenza aviária de alta patogenicidade, que já levaram ao abate sanitário de dezenas de milhões de aves em diferentes continentes, o Brasil manteve por anos o status de país livre da doença em aves comerciais. Isso não é sorte geográfica. É resultado direto de um sistema de vigilância sanitária que a maioria dos consumidores de frango nunca ouviu falar, mas que sustenta boa parte da posição do país como maior exportador mundial de carne de frango.

Galinha poedeira em granja com medidas de biosseguridade

Vigilância antes do problema aparecer

O Ministério da Agricultura e Pecuária, por meio do Plano Nacional de Prevenção da Influenza Aviária e da Doença de Newcastle (PNSA), mantém monitoramento constante tanto em granjas comerciais quanto em aves silvestres migratórias, que são o principal vetor natural do vírus. Quando casos de influenza aviária começaram a aparecer em aves silvestres no litoral brasileiro, a resposta técnica foi reforçar imediatamente as barreiras entre essas aves e os plantéis comerciais, sem esperar que o vírus chegasse de fato às granjas de produção.

Essa diferenciação importa muito para o comércio internacional: um país pode ter casos da doença isolados em aves silvestres sem perder o status de livre em aves comerciais, desde que consiga demonstrar separação epidemiológica robusta entre as duas populações. O Brasil investiu pesado exatamente nessa capacidade de demonstração técnica.

Galinha criada em sistema extensivo, importante para o status sanitário avícola

O que muda na prática dentro da granja

Para o produtor integrado, biosseguridade deixou de ser recomendação e virou exigência contratual rígida das integradoras. Isso envolve coisas que parecem básicas mas fazem toda diferença: controle de acesso de veículos e pessoas à granja, troca de roupa e calçado antes de entrar no aviário, vazio sanitário entre lotes (um período sem aves no galpão para quebrar ciclos de contaminação), e principalmente impedir qualquer contato entre aves domésticas e aves silvestres, inclusive por meio de telas que bloqueiam pássaros e roedores.

Produtores que relaxam esses protocolos colocam em risco não só o próprio plantel, mas potencialmente o status sanitário de toda a região, já que um foco confirmado pode levar ao embargo de exportações de estados inteiros por parte de países importadores, como já aconteceu em situações pontuais no passado recente.

Pintinhos em primeira exposição ao pasto em granja avícola

O valor econômico de ser considerado seguro

Esse esforço de vigilância tem retorno direto e mensurável. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) reforça, ano após ano, que a reputação sanitária do Brasil é um dos principais argumentos comerciais do setor avícola nacional em negociações internacionais, ao lado de custo de produção competitivo e disponibilidade de grãos para ração.

Em um mercado global onde o surto de influenza aviária em um país concorrente pode redirecionar bilhões de dólares em contratos de importação quase da noite para o dia, manter esse status não é luxo nem burocracia desnecessária. É, provavelmente, um dos ativos mais valiosos que a avicultura brasileira tem, mesmo que a maioria dos consumidores finais jamais perceba o trabalho por trás dele.

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