Quem pensa em abelha no Brasil geralmente imagina a africanizada, aquela que pica e assusta todo mundo no quintal. Mas existe um outro grupo, bem menos falado, que segura boa parte da polinização das florestas tropicais e de várias lavouras no país: as abelhas sem ferrão, os meliponíneos. São mais de 300 espécies só aqui, com nomes que já viraram parte do vocabulário popular em várias regiões, jataí, uruçu, mandaçaia, tubuna. Nenhuma delas pica, algumas mordem de leve quando incomodadas, e é basicamente isso.

Uma pesquisadora que colocou o Brasil no mapa da polinização
Se tem um nome que aparece sempre que o assunto é abelha nativa e polinização no Brasil, é o de Vera Lucia Imperatriz-Fonseca, professora emérita da USP. Ela passou décadas estudando meliponíneos e foi uma das coordenadoras da Iniciativa Brasileira de Polinizadores, além de ter atuado como copresidente da avaliação temática sobre polinizadores da IPBES, publicada em 2016, que reuniu centenas de cientistas para mapear o tamanho do problema da queda de polinizadores no mundo todo. O recado dela é sempre o mesmo: perder abelha nativa não é só perder um inseto bonitinho, é perder um serviço ecológico que sustenta floresta e lavoura ao mesmo tempo.
E o trabalho dessas abelhas é silencioso mesmo. Elas não têm colmeia gigante como a Apis mellifera, formam ninhos menores, às vezes dentro de troncos ocos, buracos no solo ou ninhos artificiais em caixas racionais. Mas visitam uma quantidade enorme de plantas nativas que dependem quase exclusivamente delas, porque muitas flores do cerrado e da mata atlântica coevoluíram com esses insetos específicos ao longo de milhares de anos.

Da mata para a lavoura: onde a meliponicultura já vira renda
No Rio Grande do Norte, a jandaíra (Melipona subnitida) virou até símbolo de projetos de meliponicultura no semiárido, com produtores criando caixas racionais para produzir mel e, de quebra, aumentar a polinização de culturas locais como a aceroleira. Na Bahia, é a uruçu (Melipona scutellaris) que domina esse papel, sendo criada há gerações em algumas regiões do Recôncavo Baiano. Não é uma atividade nova, é tradição que virou ciência aplicada nos últimos anos.
Culturas como maracujá, tomate cultivado em ambiente protegido, pimentão e até algumas frutíferas nativas se beneficiam da presença dessas colônias por perto. O mel produzido também tem valor comercial crescente, com características sensoriais bem diferentes do mel de Apis, mais ácido, mais aromático, e cada vez mais procurado em feiras e mercados especializados.

O que ameaça essas abelhas, e por que isso importa para quem produz
Desmatamento, uso indiscriminado de agrotóxicos e queimadas seguem sendo os principais fatores de pressão sobre as populações de meliponíneos, segundo o próprio relatório da IPBES. Diferente da abelha africanizada, que consegue se adaptar a paisagens bem alteradas, boa parte das espécies nativas depende de fragmentos de vegetação nativa próximos às áreas de cultivo para sobreviver.
Isso muda a conversa para quem trabalha com produção animal e agricultura integrada. Manter faixas de vegetação nativa na propriedade, evitar pulverização em horários de maior atividade das abelhas e considerar a instalação de caixas de meliponíneos como parte do manejo não é luxo ambiental, é estratégia produtiva. Quem já testou viu a diferença na frutificação de espécies polinizadas por esses insetos, e ainda sai com um produto extra para vender no fim da temporada.