O bezerro nasce sem nenhuma imunidade circulante no sangue — a placenta bovina não permite a passagem de anticorpos da mãe para o feto durante a gestação. Isso significa que, nas primeiras horas de vida, o colostro é literalmente a única fonte de proteção imunológica do animal, e o tempo para fornecê-lo é medido em horas, não em dias.
Por que a janela se fecha tão rápido
O intestino do bezerro recém-nascido consegue absorver moléculas grandes de imunoglobulina diretamente para a corrente sanguínea nas primeiras horas de vida — uma capacidade chamada de permeabilidade intestinal não seletiva. Essa capacidade começa a cair rapidamente já nas primeiras 6 horas e praticamente se encerra por volta das 24 horas. Depois desse ponto, o bezerro ainda pode ingerir colostro, mas a absorção sistêmica dos anticorpos já não acontece na mesma proporção — o benefício imunológico se perde mesmo que o animal continue mamando.
A regra prática: quanto, de quê qualidade e quando
O protocolo mais recomendado segue a regra dos “3Q”: Quantidade (em torno de 10% do peso vivo do bezerro na primeira mamada), Qualidade (colostro com boa concentração de imunoglobulinas, idealmente medida com um colostrômetro ou refratômetro Brix) e rapidez — oferecido nas primeiras duas horas de vida, sempre antes das seis horas. Bezerros que não mamam sozinhos dentro desse prazo precisam receber o colostro por mamadeira ou sonda esofágica, sem esperar mais tempo na tentativa de que mamem naturalmente.
Como saber se a imunização passiva funcionou
A avaliação da transferência de imunidade passiva pode ser feita por meio da dosagem de proteína total no sangue do bezerro, entre 24 e 48 horas de vida, usando um refratômetro. Valores abaixo do esperado indicam falha de transferência — um sinal de alerta que deve levar o produtor a rever o protocolo de colostragem usado no rebanho, e não apenas tratar o bezerro afetado isoladamente.
O custo de errar essa etapa
Bezerros com falha de transferência de imunidade passiva têm risco significativamente maior de diarreia neonatal e doenças respiratórias nos primeiros meses de vida, além de crescimento mais lento e maior taxa de mortalidade. O investimento de tempo nas primeiras horas de vida — que não custa nada além de atenção e organização — é uma das decisões de maior retorno em toda a criação do animal.