A mancha branca em camarões, causada pelo vírus WSSV (White Spot Syndrome Virus), é uma das doenças mais temidas pela carcinicultura brasileira desde que apareceu no país, no início dos anos 2000. Ela não tem tratamento curativo e pode levar a mortalidade em massa em poucos dias, o que faz dela um dos principais riscos sanitários para quem cria camarão marinho no Brasil.

O que é e como se manifesta a mancha branca em camarões
Segundo material técnico elaborado pela pesquisadora Emiko Shinozaki Mendes, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), e publicado pela Associação Brasileira de Criadores de Camarão (ABCC), o vírus WSSV pertence à família Nimaviridae e pode assumir diferentes formas clínicas. Na forma aguda, aparecem manchas brancas na carapaça do camarão e a mortalidade é alta em 7 a 10 dias. Já na forma muito aguda, os animais ficam com coloração avermelhada e podem morrer em massa em apenas 2 a 3 dias. Existe ainda uma forma crônica, com pouco dano visível e mortalidade mais lenta, entre 15 e 28 dias após os primeiros sinais.
Como a mancha branca chegou e se espalhou no Brasil
O primeiro registro de mortalidade por mancha branca em camarões no Brasil aconteceu em Santa Catarina, em 2004. No ano seguinte, a doença foi identificada no Ceará, ainda em animais sem sintomas visíveis. Em 2009, um caso no sul da Bahia, em Canavieiras, chegou a ser notificado à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE, hoje WOAH). Hoje, a doença é considerada presente em praticamente todos os estados do Nordeste que produzem camarão marinho, principal região produtora do país.

Transmissão e fatores de risco na carcinicultura
O vírus se transmite tanto na horizontal, de um camarão para outro dentro do mesmo viveiro, quanto na vertical, da fêmea para os ovos. Todos os estágios de vida do animal são suscetíveis, e o vírus também pode infectar outros crustáceos, como caranguejos e lagostins de água doce, que funcionam como reservatórios silenciosos mesmo sem apresentar sintomas. Entre os principais fatores de risco estão a importação de camarões vivos, como pós-larvas e reprodutores, o uso de alimento fresco ou vivo para matrizes, e a proximidade entre viveiros que compartilham água de captação, o que facilita a disseminação regional de um surto.
Por que não existe cura e como os criadores lidam com a mancha branca
Segundo o presidente da ABCC, Itamar Rocha, não há remédio específico contra a mancha branca em camarões. O manejo recomendado é preventivo: biossegurança nos viveiros, monitoramento diário da água e dos animais, controle de acesso de pessoas e equipamentos entre viveiros, e descarte adequado de camarões mortos para não espalhar o vírus. O vírus também não resiste bem ao calor, ficando inativado em cerca de duas horas a 50°C, o que reforça a importância de processos de desinfecção térmica em equipamentos e estruturas usadas no dia a dia do viveiro.
Para o produtor, identificar os sinais da mancha branca em camarões com rapidez pode ser a diferença entre perder um lote inteiro e conseguir isolar o problema antes que ele se espalhe para viveiros vizinhos, o que reforça por que o monitoramento diário continua sendo a principal ferramenta de controle disponível hoje.
- Agente: vírus WSSV (White Spot Syndrome Virus)
- Primeiro registro no Brasil: 2004, em Santa Catarina
- Mortalidade na forma muito aguda: em até 2 a 3 dias
- Transmissão: horizontal e vertical, com reservatórios em outros crustáceos
- Tratamento: não existe cura, apenas prevenção e biossegurança

A carcinicultura brasileira, concentrada principalmente no Ceará e em outros estados do Nordeste, já convive com esse risco sanitário ao lado de desafios de mercado, como a concorrência do camarão importado do Equador e os ciclos de investimento que marcam o setor, incluindo os aportes recentes do BNB na carcinicultura cearense. Assim como ocorre com outras espécies aquáticas introduzidas fora do seu ambiente original, caso da tilápia que pode se tornar espécie invasora, o equilíbrio entre produção e sanidade continua sendo um dos principais desafios da aquicultura brasileira.
O que o produtor de camarão pode fazer na prática
Na rotina do viveiro, o controle da mancha branca em camarões passa por medidas simples, mas que exigem disciplina: evitar a entrada de água de outros viveiros sem tratamento prévio, desinfetar botas, redes e equipamentos antes de circular entre tanques diferentes, e manter registro diário de mortalidade para identificar qualquer pico fora do padrão o mais rápido possível. Produtores que compram pós-larvas de laboratórios também costumam exigir certificação de ausência do vírus antes do povoamento, prática que vem se tornando padrão nas regiões onde a carcinicultura é mais consolidada.