Mais de 511 mil javalis foram abatidos no Brasil entre janeiro e agosto de 2025, segundo dados do sistema Simaf, do Ibama, um novo recorde para o país. Desde 2020, o total de abates autorizados já passa de 1,71 milhão de animais, um crescimento de 465% sobre as 90.528 autorizações daquele ano. E, segundo o pesquisador Paulo Bezerra, da Esalq/USP, o número real pode ser até cinco vezes maior, porque muitos caçadores declaram só um ou dois animais por autorização, mesmo abatendo mais.

Onde a praga mais avança
O Mato Grosso do Sul concentra parte pesada do problema, com danos relatados em lavouras de soja e milho, em áreas turísticas de Bonito, em barrancos de rio e em áreas de preservação permanente. A Federação da Agricultura e Pecuária do estado (Famasul), pela técnica Fernanda Lopes de Oliveira, acompanha de perto o avanço, enquanto a Assembleia Legislativa do estado discute um projeto para classificar o javali como praga.
No Oeste de Santa Catarina, a espécie é descrita como uma fronteira nova de ocupação. A pesquisadora Virginia Santiago, da Embrapa Suínos e Aves, acompanha o fenômeno na região, apontando o Centro-Sul do Brasil como a área onde o javali já se consolidou como praga.
O que o javali causa, e como se controla
Os danos relatados vão muito além da lavoura de soja e milho:
- Prejuízo a pastagens e canaviais
- Risco de transmissão de doenças para rebanhos domésticos
- Ameaça à biosseguridade de cadeias produtivas inteiras, suinocultura incluída
A caça segue sendo o método de controle mais eficaz, mas exige autorização e registro como controlador no Ibama, sob uma norma técnica de 2013. Os estados podem criar regras próprias, desde que não conflitem com a legislação federal, mas só São Paulo e, mais recentemente, Minas Gerais aprovaram leis específicas sobre o tema. No Congresso, o deputado Alceu Moreira (MDB-RS) apresentou projeto para transferir a responsabilidade de controle a estados e municípios e afrouxar regras sobre produtos de controle, hoje em análise na Comissão de Saúde.

Rafael Salermo, da associação Aqui Tem Javali, é outra voz que acompanha o problema de perto. O retrato que emerge desses números é de uma espécie que se adaptou rápido demais ao território brasileiro, e que a estrutura de controle hoje disponível, por mais que tenha batido recorde em abates, ainda corre atrás do próprio crescimento da população.
