O Brasil produziu 5,3 milhões de toneladas de carne suína em 2024, com 46,6 milhões de animais abatidos e 2,1 milhões de matrizes ativas, mantendo a quarta posição mundial em produção. Atrás desse número grande está uma mudança mais silenciosa, mas que pesa cada vez mais na hora de fechar contrato de exportação: o bem-estar animal deixou de ser discurso e virou critério comercial.
O 6º Observatório Suíno, levantamento da Alianima que ouve separadamente produtores e compradores como redes de restaurante e supermercado, mostra que produtores responsáveis por 62,2% das matrizes ativas do país, segundo dados da ABPA, já assumiram o compromisso de eliminar a gaiola de gestação individual nas novas instalações.

Por que isso importa para quem exporta
A União Europeia proíbe a gaiola de gestação desde 2013, com exceção dos primeiros 28 dias após a inseminação. Noruega, Suécia, Suíça, Reino Unido e Nova Zelândia (com implementação total prevista) seguiram o mesmo caminho, assim como 11 estados americanos. A Conab resume bem o cenário: a exigência crescente dos países importadores tornou a adequação do manejo um diferencial competitivo, não só uma questão ética.
Maria Fernanda Martin, zootecnista e gerente de relações corporativas e bem-estar animal da Alianima, afirma que o objetivo do levantamento é identificar gargalos e reconhecer boas práticas, empurrando o setor para sistemas mais sustentáveis. Segundo ela, a maioria dos fornecedores já avançou na gestação coletiva, com compromissos públicos para sistemas de cobertura e solta em instalações novas.
O que ainda trava a mudança
Migrar para gestação coletiva não é só trocar o layout da granja. Os fornecedores apontam três obstáculos principais:
- Financiamento, citado por 89% dos fornecedores
- Precificação do produto final, citado por 78%
- Planejamento da instalação, citado por 67%
O sistema de cobertura e solta também divide opiniões dentro da própria cadeia. As vantagens relatadas incluem bem-estar, saúde e melhor desempenho da matriz, mas os fornecedores também citam perdas reprodutivas, disputas entre animais, dificuldade de manter a condição corporal, custo mais alto e necessidade de mais espaço.

Na maternidade, a gaiola de parição também é vista como problema de bem-estar, e 67% dos fornecedores dizem planejar ampliar o espaço de maternidade, um salto de 29% em relação ao levantamento anterior. Entre os leitões, nenhuma empresa produtora relatou fazer castração cirúrgica, e 78% já pararam de cortar dentes. O corte de orelha e de cauda, porém, resiste: só a MBRF afirmou pretender banir o corte de cauda, e Martin reconhece que esse é o manejo mais complexo para o banimento, porque a canibalismo de cauda tem causas múltiplas e ainda não há solução eficaz para todas elas.
