O Brasil tem hoje cerca de 177 milhões de hectares de pastagem, segundo o Atlas das Pastagens do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (LAPIG) da UFG. Dentro dessa área gigantesca, um estudo da Embrapa publicado na revista científica Land identificou algo que muda a conversa sobre expansão agrícola no país: 28 milhões de hectares estão em degradação intermediária a severa e reúnem boas condições para virar lavoura, sem precisar derrubar um hectare de vegetação nativa.

O tamanho real da degradação
O levantamento é assinado por pesquisadores da Embrapa Agricultura Digital, da Embrapa Cerrados e da Embrapa Meio Ambiente, entre eles Édson Bolfe, Daniel Victoria e Edson Sano, com apoio da Fapesp. Dos 28 milhões de hectares mapeados, 10,5 milhões estão em degradação severa e 17,5 milhões em degradação intermediária. Para quem acompanha o debate sobre uso da terra no Brasil, o número reforça um ponto que a Embrapa já vinha sinalizando há anos: o país não precisa abrir nova fronteira para crescer na agropecuária, porque já tem terra ocupada e mal aproveitada esperando recuperação.
Para ter uma ideia do peso desse número, se toda essa área fosse convertida só para produção de grãos, ela equivaleria a um acréscimo de 35% sobre a área plantada na safra 2022/2023. É uma reserva de produtividade que já está dentro da porteira, e não do outro lado da cerca.
Onde está essa área e por que a logística ajuda
O estudo aponta os estados com maior potencial de conversão: Mato Grosso lidera com 5,1 milhões de hectares, seguido por Goiás (4,7 milhões), Mato Grosso do Sul (4,3 milhões), Minas Gerais (4,0 milhões) e Pará (2,1 milhões). Um detalhe que pesa a favor da viabilidade econômica é a proximidade de infraestrutura já existente: 54% dessas áreas ficam a até 20 quilômetros de armazéns, e 89% estão a até 20 quilômetros de rodovias. Ou seja, não é terra isolada no meio do nada, é terra que já está dentro ou perto da malha logística do agronegócio.

O que foi deixado de fora da conta
Os pesquisadores tiveram o cuidado de excluir da análise áreas sensíveis, como terras indígenas, unidades de conservação, assentamentos, territórios quilombolas e regiões classificadas como de alta prioridade para conservação ambiental. Essa filtragem é o que separa um estudo técnico sério de um simples inventário de hectares disponíveis, e é também o que dá respaldo para que o dado seja usado em políticas públicas como o Plano ABC+ (Agricultura de Baixo Carbono) e o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas, ambos conduzidos pelo Ministério da Agricultura e Pecuária.
- 177 milhões de hectares de pastagem no Brasil, segundo o Atlas das Pastagens (LAPIG/UFG)
- 28 milhões de hectares em degradação intermediária a severa com potencial de conversão agrícola
- 10,5 milhões de hectares em degradação severa e 17,5 milhões em degradação intermediária
- Equivalente a +35% sobre a área plantada de grãos na safra 2022/2023, se convertida inteiramente
- Mato Grosso lidera o potencial de conversão, com 5,1 milhões de hectares
- 54% das áreas ficam a até 20 km de armazéns e 89% a até 20 km de rodovias
O que isso muda na prática
Para o produtor, o estudo é mais um argumento técnico a favor de um debate que já vinha ganhando força: recuperar pastagem degradada rende mais do que abrir área nova, seja para manter a própria pecuária em pé de produtividade maior, seja para destinar parte da propriedade a lavoura. A pesquisa está disponível no Redape, o repositório de dados da Embrapa, e deve alimentar diretamente as próximas revisões de metas do Plano ABC+, que já usa a recuperação de pastagens degradadas como um dos pilares centrais para reduzir emissões no setor agropecuário sem reduzir produção.
