Cachorro não fala, mas também não é tão silencioso quanto a gente pensa. O problema é que boa parte dos sinais de dor em cães é sutil, e muito tutor só percebe quando o animal já está claramente mancando ou gemendo. Até lá, o cão pode estar sofrendo há semanas.

Por que é tão difícil perceber a dor no seu cão
Cães descendem de animais que precisavam esconder fragilidade para sobreviver em grupo. Esse instinto não desapareceu só porque o bichano (perdão, o cachorro) dorme num sofá aquecido. Na clínica, pesquisadores da Universidade de Glasgow, no Reino Unido, desenvolveram a Glasgow Composite Measure Pain Scale justamente porque veterinários clínicos tinham dificuldade em quantificar dor canina de forma consistente. A escala, criada por Jacqueline Reid e sua equipe, virou referência internacional e é usada até hoje em hospitais veterinários no Brasil.
Nos Estados Unidos, a Colorado State University também desenvolveu sua própria escala de dor aguda canina, conduzida pelo anestesiologista veterinário Peter Hellyer. Ambas as ferramentas partem do mesmo princípio: observar comportamento, não esperar o cão “avisar”.
Os sinais que realmente importam
Nem todo sinal aparece isolado, e às vezes o cão mostra dois ou três ao mesmo tempo. Vale prestar atenção nestes:
- Mudança na forma de sentar ou levantar. Se o cão passou a se sentar torto, de um jeito que evita apoiar o quadril ou uma pata, preste atenção.
- Lambedura ou mordiscada repetida num ponto específico do corpo. Pode ser uma articulação, uma pata, a lombar. O cão está tentando aliviar algo.
- Queda de apetite sem motivo aparente. Antes de pensar em manha, pense em dor, principalmente se o cão é mais velho.
- Resmungo, rosnado ou reação defensiva ao ser tocado numa região específica. Um cão dócil que de repente reage mal ao toque está comunicando algo.
- Respiração mais rápida ou superficial mesmo em repouso. Isso é um dos critérios formais da escala de Glasgow.
- Evitar escadas, pulos ou caminhadas que antes eram rotina. Articulação dói mais em movimento, então o cão simplesmente para de fazer o que doía.
- Isolamento ou irritabilidade fora do padrão. Cachorro que buscava colo e passou a se afastar, ou que ficou mais arisco do nada, pode estar desconfortável.

O que fazer quando um ou mais sinais aparecem
Primeiro, não dê analgésico humano. Ibuprofeno e paracetamol são tóxicos para cães, e isso já causou mais de uma emergência evitável. O caminho certo é levar o animal para avaliação veterinária, de preferência descrevendo quando o sinal começou e se piora em algum horário ou situação específica.
Em cães mais velhos, a causa mais comum por trás desses sinais é osteoartrite, uma condição degenerativa das articulações que afeta boa parte dos cães acima de sete anos, segundo levantamentos clínicos conduzidos por hospitais veterinários universitários. Em cães jovens, vale investigar displasia coxofemoral ou lesões ortopédicas recentes, como as de ligamento cruzado.

No fim das contas, o tutor que conhece a rotina do próprio cão é quem primeiro percebe que algo mudou. Nenhuma escala de dor substitui esse olhar diário. Ela só ajuda a traduzir em clínica o que o tutor já sentiu em casa.