Produção de Leite de Cabra no Brasil: Potencial Pouco Explorado

Enquanto o leite de vaca domina as prateleiras e a atenção da pesquisa zootécnica no Brasil, a caprinocultura leiteira segue como uma atividade meio invisível, concentrada em algumas regiões e pouco conhecida fora delas. Isso é uma pena, porque o potencial produtivo e nutricional do leite de cabra está bem documentado, e o mercado consumidor vem crescendo, puxado por quem busca alternativas para intolerância à lactose bovina e por nichos de gastronomia com queijos finos.

Cabra leiteira, caprinocultura de leite

O que a pesquisa da Embrapa mostra sobre a atividade

Raymundo Rizaldo Pinheiro, pesquisador da Embrapa Caprinos e Ovinos em Sobral, no Ceará, dedica boa parte do trabalho a temas de sanidade e produção caprina no semiárido nordestino, região que concentra historicamente o maior rebanho de caprinos do país. Um ponto recorrente nas publicações da unidade é que a caprinocultura leiteira no Nordeste ainda opera muito abaixo do potencial genético dos animais, em boa parte por limitações de manejo nutricional e sanitário, não por incapacidade produtiva da espécie em si.

Isso significa que existe uma margem grande de ganho simplesmente melhorando práticas básicas: suplementação estratégica em períodos de seca, controle de verminose, que é historicamente um dos principais fatores limitantes em caprinos, e seleção genética direcionada para produção leiteira em vez de só rusticidade.

Cabra leiteira em sistema de produção, ordenha caprina

As raças que fazem a diferença na bacia leiteira

Saanen e Alpina são as raças especializadas mais usadas em sistemas de produção intensiva no país, com potencial de produção bem superior às raças nativas ou mestiças que ainda predominam em rebanhos de subsistência no semiárido. A raça Anglonubiana, por sua vez, combina uma produção leiteira razoável com teor de gordura mais alto, o que interessa direto para quem produz queijo, já que rendimento de queijaria depende muito mais de sólidos totais do que de volume bruto de leite.

O leite de cabra também carrega uma vantagem nutricional pouco divulgada: os glóbulos de gordura são menores que no leite bovino, o que facilita a digestão para muitas pessoas, mesmo sem eliminar completamente a lactose do produto. Esse detalhe técnico é justamente o que sustenta boa parte do apelo comercial do produto em mercados urbanos.

Cabra em campo, caprinocultura no semiárido brasileiro

Onde está a barreira para crescer

O gargalo não é falta de demanda nem limitação biológica do animal. É estrutura de cadeia produtiva: poucos laticínios especializados em processar leite de cabra, dificuldade de escoamento em pequenas propriedades e ausência de uma política de preço tão consolidada quanto a do leite bovino. Produtores que conseguem se organizar em cooperativas ou vender direto para queijarias artesanais costumam ter margem melhor do que quem depende de intermediários dispersos.

Para quem está pensando em entrar na atividade, o recado da pesquisa é consistente: não adianta trazer uma raça leiteira de ponta e manter o manejo sanitário do sistema extensivo tradicional. Genética de qualidade só entrega resultado quando combinada com nutrição adequada e controle parasitário sério, principalmente no semiárido, onde a pressão de verminose é alta na maior parte do ano.

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