Peste suína clássica e peste suína africana têm nomes parecidos e sintomas que se confundem no campo, febre alta, hemorragias, mortalidade elevada, mas são doenças causadas por vírus completamente diferentes, com histórico de controle muito distinto. Para quem cria suínos no Brasil, entender essa diferença não é curiosidade acadêmica, é questão de saber para onde olhar quando um lote começa a adoecer de forma atípica.

Vírus de famílias diferentes, biologia diferente
A peste suína clássica é causada por um Pestivirus, da família Flaviviridae, o mesmo grupo que inclui vírus como o da diarreia viral bovina. Já a peste suína africana é causada por um vírus de DNA da família Asfarviridae, o único representante conhecido dessa família, o que sozinho já explica boa parte da dificuldade histórica em desenvolver uma vacina eficaz contra ela. São organismos estruturalmente distantes, e tratá-los como a mesma ameaça é o primeiro erro de diagnóstico de campo.
A vacina existe para uma, não para a outra
Contra a peste suína clássica, existem vacinas atenuadas eficazes há décadas, usadas em programas de erradicação em vários países. Contra a peste suína africana, o cenário é diferente, não existe vacina comercial amplamente disponível e validada internacionalmente, embora alguns países como o Vietnã tenham aprovado o uso emergencial de candidatas nos últimos anos. Linda Dixon, virologista do Pirbright Institute, no Reino Unido, uma das principais referências mundiais em peste suína africana, tem publicado repetidamente sobre como a complexidade genômica do vírus, com mais de 150 genes codificando proteínas que driblam o sistema imune do hospedeiro, torna esse um dos desafios mais duros da virologia veterinária atual.

Transmissão: um detalhe que muda tudo no manejo
A peste suína africana tem um vetor que a clássica não tem, carrapatos moles do gênero Ornithodoros conseguem manter o vírus por anos e transmiti-lo entre javalis e suínos domésticos, o que complica enormemente qualquer estratégia de erradicação baseada só em abate e quarentena. A letalidade da forma aguda da peste suína africana também costuma ser mais alta, chegando perto de 100% em algumas cepas, enquanto a peste suína clássica tem apresentações que variam de aguda a crônica, com taxas de mortalidade mais heterogêneas.
O Brasil ainda está livre, e é bom que continue assim
O Brasil mantém status de país livre tanto de peste suína clássica quanto de peste suína africana, reconhecido pela Organização Mundial de Saúde Animal. A Embrapa Suínos e Aves, em Concórdia, Santa Catarina, mantém programas de vigilância e orientação técnica voltados justamente a manter essa condição, incluindo protocolos de biosseguranca para restos de alimentos, controle de acesso de veículos e monitoramento de javalis silvestres nas regiões de fronteira. Com surtos de peste suína africana registrados em países vizinhos da América do Sul nos últimos anos, manter esse cordão sanitário depende diretamente do que cada produtor faz na porteira da própria granja.

Na prática, a lição para quem está na produção é simples de enunciar e trabalhosa de manter todo dia: nunca alimentar suínos com restos de comida não tratados, controlar rigorosamente a entrada de pessoas e veículos na granja, e notificar qualquer mortalidade atípica ao serviço veterinário oficial sem demora. A diferença entre um surto controlado e uma crise sanitária nacional geralmente se resume a quantos dias se perdem entre o primeiro sinal clínico e a primeira notificação.