Uso da Terra na Pecuária de Corte: Como o Brasil Produz Mais Carne com Menos Pasto

Uma das tendências mais contraintuitivas da pecuária brasileira agora: a área destinada a pastagens no país encolheu para o menor patamar desde 1970 — e, ainda assim, a produção e a produtividade seguem subindo. Não é coincidência. É a assinatura estrutural de um setor cada vez mais intensificado.

O recorde de produtividade por hectare

Em 2025, a pecuária de corte brasileira bateu um recorde histórico: 73,2 kg de carcaça produzidos por hectare. Esse número é o indicador-chave que conecta uso da terra e produção de carne — ele mostra quanto de alimento sai de cada pedaço de pasto, independentemente de quantos animais foram necessários para chegar lá. Quanto maior esse número, menos terra o país precisa abrir (ou manter) para produzir a mesma quantidade de carne.

Menos área, mais carne: como isso é possível

Esse ganho não vem de um fator isolado, mas da combinação de melhoramento genético, manejo de pastagem mais eficiente (pastejo rotacionado, recuperação de áreas degradadas) e, principalmente, do avanço do confinamento. A participação do confinamento nos abates nacionais saltou de 16,7% em 2011 para 21,2% em 2025, com projeção de superar 23% em 2026. O número de animais confinados quase dobrou em três anos: de 6,1 milhões de cabeças em 2022 para 9,1 milhões em 2025. Cada boi que termina no confinamento em vez de esperar o ciclo completo a pasto libera área que, de outra forma, seria necessária para sustentar esse mesmo animal por mais tempo — reduzindo diretamente a pressão por abertura de novas pastagens.

O ganho de peso por animal também mudou o jogo

O peso médio de carcaça no Brasil subiu de 224 kg em 1997 para 257,5 kg em 2025 — um avanço de 14,9%, ou cerca de 2,2 arrobas a mais por animal abatido. Na prática, isso significa que cada boi que vai para o abate hoje representa mais carne do que representava há três décadas, reduzindo o número de animais — e, por consequência, de hectares — necessários para produzir o mesmo volume de carne.

O que essa dinâmica significa pro setor

Essa combinação — recorde de produtividade por hectare, área de pastagem em queda e confinamento em expansão — aponta para um caminho de crescimento da produção sem necessariamente expandir a fronteira agropecuária, mas o ritmo dessa transição varia muito entre regiões e depende de investimento em infraestrutura que nem todo produtor tem acesso igual. Entender como essa estrutura produtiva e essa dinâmica de uso da terra se distribuem pelo país foi exatamente o que me motivou a escrever um livro baseado no Beef Report 2026 da Abiec e em revisão da literatura científica: Sistemas de Produção de Bovinos de Corte no Brasil: Estrutura Produtiva, Níveis de Intensificação e Dinâmica do Uso da Terra, já disponível como ebook Kindle na Amazon para quem quiser se aprofundar nos números e nas fontes por trás dessa transformação.

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