O metano entérico é o gás produzido durante a fermentação ruminal e liberado principalmente pela boca do animal — não pela extremidade que o senso comum costuma apontar. Em bovinos, ele responde por boa parte da pegada de carbono da carne e do leite, o que fez do tema uma prioridade tanto para a ciência animal quanto para o mercado, que já cobra metas de redução de emissões da cadeia pecuária.
Por que o rúmen produz metano
No rúmen, microrganismos arqueias metanogênicas usam o hidrogênio gerado na fermentação de carboidratos para produzir metano (CH4). É um processo natural e necessário ao equilíbrio da fermentação — mas também representa perda de energia que o animal poderia converter em ganho de peso ou leite. Estima-se que entre 2% e 12% da energia bruta ingerida pelo bovino seja perdida na forma de metano, dependendo da dieta.
O papel da dieta
Dietas com mais fibra de baixa qualidade favorecem rotas fermentativas que geram mais metano por unidade de alimento consumido. Já dietas com maior proporção de concentrado, lipídios ou forragens mais digestíveis tendem a reduzir a metanogênese. Aditivos como taninos condensados, óleos essenciais e, mais recentemente, inibidores específicos da metanogênese (como o 3-NOP) têm mostrado reduções de 20% a 30% na emissão por animal em estudos controlados, sem prejudicar o desempenho produtivo.
Também há efeito indireto: animais mais bem nutridos e com ganho de peso mais rápido atingem o abate mais cedo, o que reduz a emissão total por quilo de carcaça produzida — mesmo sem qualquer aditivo específico.
O que a genética já consegue explicar
Estudos em bovinos leiteiros mostram que a produção de metano tem herdabilidade moderada, o que significa que parte da variação entre animais é geneticamente determinada — não depende só da dieta. Populações de pesquisa já identificam animais “baixos emissores” que, com a mesma dieta, produzem menos metano por unidade de leite ou de ganho de peso. Programas de melhoramento genético em países como Nova Zelândia e Reino Unido já incluem essa característica em seus índices de seleção, e o mesmo movimento começa a aparecer em núcleos de pesquisa no Brasil.
O que isso significa na prática
Para o produtor, a redução de metano entérico não é uma pauta isolada de sustentabilidade — ela caminha junto com eficiência alimentar. Um animal que converte melhor o alimento em produto geralmente também emite menos metano por unidade produzida. Isso abre espaço para que estratégias já conhecidas (ajuste fino da dieta, uso de aditivos, seleção genética por eficiência alimentar) sirvam aos dois objetivos ao mesmo tempo: reduzir custo e reduzir a pegada de carbono do sistema.