MAPA proíbe bacitracina e virginiamicina: o prazo que a suinocultura tem até outubro

Enquanto a atenção do setor estava voltada para a nova barreira europeia contra antimicrobianos — que tirou o Brasil da lista de países liberados a exportar —, o próprio Brasil já havia mudado as regras internamente. Em abril, o MAPA proibiu cinco antimicrobianos como promotores de crescimento na produção animal. O prazo para tirá-los definitivamente do mercado termina em outubro deste ano, e dois deles são pilares da nutrição suína.

O que a Portaria 1.617 realmente proíbe

A Portaria SDA/MAPA nº 1.617, publicada em 24 de abril de 2026, proíbe a importação, fabricação, comercialização e uso de cinco antimicrobianos quando destinados a melhorar o desempenho zootécnico dos animais:

  • Virginiamicina
  • Bacitracina
  • Bacitracina de zinco
  • Bacitracina metileno dissalicilato
  • Avoparcina

Para a suinocultura, os dois nomes que importam são bacitracina (em suas variantes) e virginiamicina — dois dos antimicrobianos mais usados em rações de creche e crescimento no Brasil nas últimas décadas, presentes em boa parte dos núcleos e premixes comerciais.

O prazo é mais curto do que parece

A portaria entrou em vigor na própria data de publicação. Produtos já fabricados ou importados antes disso — incluindo estoque em trânsito ou em processo de desembaraço aduaneiro — podem seguir sendo comercializados e usados por até 180 dias, prazo que se encerra por volta de 24 de outubro de 2026.

Depois disso, o que restar em estoque precisa ser recolhido do mercado. As empresas do setor também tiveram 30 dias, a partir da publicação, para informar ao MAPA o volume de estoque remanescente.

Na prática: quem ainda formula ração com bacitracina ou virginiamicina tem, a partir de hoje, cerca de sete semanas para reformular a dieta — não sete meses.

O que não muda: os ionóforos continuam liberados

Vale um esclarecimento direto, porque a confusão é comum. A Portaria 1.617 não menciona ionóforos — monensina, lasalocida, salinomicina, narasina. Eles continuam autorizados no Brasil, inclusive como melhoradores de desempenho, de acordo com seus registros aprovados. Já explicamos por que essa distinção existe: a restrição é de finalidade e de risco à saúde humana, não de “ser antibiótico” em sentido amplo. Bacitracina e virginiamicina têm uso — ainda que limitado — em medicina humana; os ionóforos, usados majoritariamente em bovinos, não têm.

Ou seja: a proibição de abril mira especificamente as classes com maior preocupação de resistência cruzada — e isso recai com mais peso sobre aves e suínos, onde bacitracina e virginiamicina são amplamente usadas, do que sobre bovinos.

O que substitui bacitracina e virginiamicina na dieta suína

Não existe substituto único e direto — a função desses antimicrobianos (controle da microbiota intestinal, principalmente na fase de creche) precisa ser recomposta com uma combinação de estratégias:

  • Ácidos orgânicos — fórmico, acético, propiônico e butírico, isolados ou combinados, reduzem o pH intestinal e o desafio de patógenos como E. coli. A combinação de ácido fórmico e propiônico já mostrou melhora na consistência fecal de leitões desafiados.
  • Probióticos — principalmente cepas de Lactobacillus, que ajudam a manter a saúde intestinal e reduzem a inflamação da mucosa.
  • Prebióticos — inulina e pectina estimulam populações benéficas de Lactobacillus e Bifidobacterium, competindo por espaço com patógenos.
  • Fitogênicos — óleos essenciais, taninos e saponinas de origem vegetal, com ação antimicrobiana e antioxidante direta sobre a parede celular de bactérias patogênicas.
  • Peptídeos antimicrobianos — moléculas como a lactoferrina, ainda em adoção mais recente, com resultados promissores em sobrevivência de leitões.

Nenhuma dessas classes replica sozinha o efeito da bacitracina ou da virginiamicina. A literatura é consistente nesse ponto: a saída é combinar duas ou três estratégias, ajustar a formulação com o nutricionista responsável e monitorar de perto os primeiros lotes — especialmente na creche, fase mais sensível a desafios entéricos e onde o impacto da retirada tende a aparecer primeiro.

O que fazer nas próximas semanas

  1. Leia o rótulo do seu núcleo ou premix agora. Se contém bacitracina ou virginiamicina, o relógio já está correndo.
  2. Não espere outubro chegar. A reformulação de dieta de creche exige testes e ajuste fino — deixar para a última semana do prazo é receita para queda de desempenho no lote de transição.
  3. Reforce o manejo, não só a ração. Boa parte do desafio que os promotores de crescimento mascaravam vem de falhas de biosseguridade, ventilação e higiene de instalação — pontos que compensam parte da perda de desempenho quando corrigidos junto com a troca de aditivo.
  4. Fale com seu fornecedor de núcleo. A indústria de nutrição animal já está reformulando linhas inteiras por causa da Portaria 1.617 — vale confirmar se o seu produto atual já mudou de composição sem que o rótulo tenha sido atualizado na prateleira.

O pano de fundo é o mesmo dos outros dois movimentos regulatórios desta semana: o mundo está deixando de aceitar antimicrobiano de uso contínuo como ferramenta de rotina — e dessa vez a mudança não veio de fora. Veio do próprio MAPA, com prazo contando desde abril.


Fontes: Portaria SDA/MAPA nº 1.617, de 24 de abril de 2026 (Diário Oficial da União); Agrimídia; CompreRural; oprogressonet.com (esclarecimentos regulatórios); biosseguridade.com.

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