Raças equinas brasileiras: as marchas, as origens e por que o Mangalarga Marchador domina o rebanho

O Brasil tem cerca de 5,8 milhões de equinos — o quarto maior rebanho do mundo, atrás apenas de Estados Unidos (10,6 milhões), México (7,1 milhões) e China (6,4 milhões), segundo dados da FAO de 2021.

E não é um rebanho decorativo. Um estudo coordenado pelo professor Roberto Arruda Souza Lima, da Esalq/USP, estima que o mercado de equinos movimente mais de R$ 30 bilhões e empregue mais de 3 milhões de pessoas no país. Cerca de 36% desse PIB equino está concentrado em animais de lazer e de esporte.

Antes das raças: entenda o andamento

Quem não é do meio olha um cavalo e vê um cavalo. Quem é do meio olha para os pés. O andamento — a sequência em que o animal apoia os cascos no chão — é o que define boa parte das raças brasileiras, e explica por que um cavalo custa dez vezes mais que outro aparentemente igual.

Os andamentos naturais básicos são passo, trote e galope. O trote é um andamento saltado, de dois tempos e com fase de suspensão: é ele que joga o cavaleiro para cima e cansa quem passa horas na sela.

A marcha é diferente. É um andamento de quatro tempos em que sempre há pelo menos um casco no chão, sem fase de suspensão. Resultado: o dorso do animal praticamente não sobe e desce, e o conforto do cavaleiro é incomparável. Não é acaso que as raças marchadoras tenham dominado um país de grandes distâncias.

  • Marcha batida — predominam apoios diagonais. É mais firme e acelerada.
  • Marcha picada — predominam apoios laterais. É mais macia e deslizante.
  • Marcha de centro — alterna os dois padrões, ficando no meio-termo.

Mangalarga Marchador

É a raça que define o cavalo brasileiro. Sozinha, representa cerca de 31% de todo o rebanho equino nacional, com aproximadamente 709 mil cabeças registradas entre lazer, esporte e trabalho.

Nasceu em Minas Gerais, a partir de reprodutores de origem ibérica, e foi selecionada exatamente para o que a geografia mineira exigia: percorrer muitos quilômetros de terreno acidentado sem destruir o cavaleiro. Aceita as marchas batida, picada e de centro, é dócil, resistente e tem enorme longevidade funcional.

Campolina

Também mineira, também marchadora — mas com um porte visivelmente maior. É um cavalo de estrutura imponente, perfil de cabeça subconvexo e presença marcante em concurso morfológico. Predomina a marcha batida.

O maior porte é uma vantagem para cavaleiros mais pesados e para atrelagem, e é também o motivo pelo qual a raça conquistou espaço na criação de padrão mais luxuoso.

Mangalarga (Paulista)

Compartilha a origem histórica com o Marchador, mas seguiu caminho próprio na seleção, com forte presença em São Paulo. É um animal de porte médio a grande, elegante, com boa aptidão para sela e para provas funcionais.

Crioulo

O cavalo do pampa. Descende dos equinos ibéricos trazidos pelos colonizadores e passou séculos sob seleção natural severa no Sul — frio, campo aberto, pouca assistência. O que sobreviveu virou raça.

É compacto, de ossatura forte, cascos excepcionalmente rígidos e resistência lendária. Sua vitrine é a Prova do Freio de Ouro, que avalia justamente a habilidade de trabalhar com o gado. Se o Marchador foi selecionado para o conforto, o Crioulo foi selecionado para a dureza.

Pantaneiro

A raça mais subestimada da lista, e talvez a mais interessante do ponto de vista zootécnico. O Pantaneiro é fruto de séculos de adaptação a um ambiente que mataria a maioria dos cavalos: alagamento sazonal, calor extremo, forragem de baixa qualidade e alta carga parasitária.

O resultado é um animal de porte médio, rústico ao extremo, com tolerância a permanecer longos períodos em água e resistência a doenças que derrubam raças exóticas na mesma região. É um patrimônio genético de adaptação — e um material valiosíssimo para programas de melhoramento em ambiente tropical.

Quarto de Milha

De origem norte-americana, mas hoje uma das raças mais numerosas e comercialmente relevantes do Brasil. O nome vem da distância em que ele é imbatível: um quarto de milha, cerca de 400 metros.

É musculoso, de garupa poderosa e aceleração explosiva. No Brasil se firmou em três frentes bem distintas — corrida, conformação e trabalho com gado (vaquejada, apartação, três tambores) —, e essas linhagens divergiram tanto que hoje um exemplar de corrida e um de trabalho parecem quase animais diferentes.

Brasileiro de Hipismo

Raça criada no país com objetivo específico: produzir cavalos de esporte olímpico. Foi formada com base em sangue europeu de salto somado a matrizes nacionais, com seleção rigorosa por desempenho em pista. É a resposta brasileira à necessidade de não depender de importação para competir em salto e adestramento.

Como escolher

A pergunta certa nunca é “qual a melhor raça”, e sim o que o animal vai fazer:

  • Muitas horas de sela, cavalgada, lida em terreno acidentado → raças marchadoras (Mangalarga Marchador, Campolina, Mangalarga)
  • Trabalho com gado e provas funcionais → Crioulo ou Quarto de Milha de linhagem de trabalho
  • Velocidade em distância curta → Quarto de Milha de corrida
  • Salto e adestramento → Brasileiro de Hipismo
  • Ambiente tropical severo, com pouca estrutura de suporte → Pantaneiro

E vale um alerta que nenhum vendedor vai dar: a variação dentro de uma raça é maior que a variação entre raças. Um Mangalarga Marchador mal selecionado marcha pior que um mestiço bem escolhido. Registro genealógico garante origem — não garante qualidade. Ver o animal andar, de preferência acompanhado de alguém que entenda de andamento, continua valendo mais que qualquer pedigree no papel.

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