Estresse térmico em bovinos: o que o ITU realmente diz sobre o seu rebanho

Todo mundo que trabalha com gado sabe reconhecer um animal com calor: boca aberta, flanco subindo rápido, o rebanho inteiro amontoado na sombra de uma única árvore às duas da tarde. O que nem sempre fica claro é o quanto isso custa em arroba, em prenhez e em leite — e a partir de que ponto exatamente o boi deixa de estar confortável.

O boi não sente “temperatura”, sente carga térmica

O termômetro sozinho engana. Trinta graus com 40% de umidade e vento é uma situação; trinta graus com 85% de umidade e ar parado é outra completamente diferente. A diferença está na capacidade do animal de perder calor.

O bovino dissipa calor por quatro caminhos: condução, convecção, radiação e evaporação. Quando a temperatura do ar se aproxima da temperatura corporal, os três primeiros perdem eficiência — não existe gradiente para o calor “descer”. Sobra a evaporação, pela respiração e pelo suor. E é justamente a evaporação que a umidade do ar bloqueia. Por isso um dia abafado castiga mais que um dia seco e quente.

O ITU: juntando temperatura e umidade em um número

O Índice de Temperatura e Umidade (ITU) foi criado exatamente para resolver isso. Uma das versões mais usadas combina a temperatura do ar (Tbs, bulbo seco, em graus Celsius) com a umidade relativa (UR, em %):

ITU = (1,8 × Tbs + 32) − (0,55 − 0,0055 × UR) × (1,8 × Tbs − 26)

Existem outras formulações — algumas usam temperatura de ponto de orvalho ou de bulbo úmido. Vale sempre saber qual está sendo usada antes de comparar números entre trabalhos diferentes.

As faixas de interpretação mais difundidas para bovinos são aproximadamente estas:

  • Até 72 — conforto. O animal mantém a homeotermia sem gastar energia extra.
  • 72 a 79 — alerta. Já começam queda de consumo e aumento da frequência respiratória.
  • 79 a 89 — perigo. Perdas claras de desempenho e de fertilidade.
  • Acima de 89 — emergência. Risco real de morte, especialmente em confinamento sem sombra.

Um cuidado importante: esses limiares foram construídos majoritariamente com animais taurinos, principalmente Holandês em produção de leite. Zebuínos — e o Nelore em particular — toleram bem mais. Pelagem clara e refletiva, pele pigmentada, maior densidade de glândulas sudoríparas e menor produção de calor metabólico deslocam o limiar de tolerância para cima. Aplicar a tabela do Holandês em Nelore a pasto superestima o problema; aplicá-la em mestiços de alta produção pode subestimá-lo.

O que o calor faz, na prática

A primeira resposta do animal é reduzir consumo. Faz sentido do ponto de vista fisiológico: a fermentação ruminal e o metabolismo dos nutrientes geram calor, e comer menos é uma forma de gerar menos calor interno. Só que menos ingestão significa menos energia disponível para ganho e para produção.

Em seguida vem a mudança no comportamento de pastejo: o animal desloca a atividade para o começo da manhã e para o fim da tarde, e passa as horas centrais do dia parado na sombra. Em pastagens sem sombreamento adequado, isso reduz o tempo efetivo de pastejo e o consumo diário.

A reprodução é a parte mais cara e a menos visível. O estresse térmico compromete a qualidade do oócito, a competência do embrião nos primeiros dias e a manifestação de cio — vacas em calor apresentam estros mais curtos e menos intensos, o que derruba a taxa de detecção. Em touros, o efeito sobre a espermatogênese aparece semanas depois do evento térmico, porque o ciclo de produção espermática é longo. Um novembro muito quente pode se manifestar como falha de fertilidade em janeiro.

O que dá para fazer

Sombra é a intervenção de melhor custo-benefício. Sombra natural de árvores é superior à artificial, porque além de bloquear a radiação direta ela resfria o ar por evapotranspiração. Sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta (ILPF) entregam isso como subproduto do arranjo, junto com o resto dos benefícios de sistema. Onde não há árvore, sombrite ou telha com pé-direito alto e boa ventilação resolvem, desde que dimensionados — algo em torno de 3 a 5 m² por animal adulto, distribuídos em vários pontos para não concentrar o rebanho em um lugar só.

Água limpa, fresca e perto. O consumo de água sobe muito no calor, e bebedouro distante custa deslocamento sob sol. Bebedouro sombreado, com vazão suficiente para atender o pico da tarde, é básico e frequentemente negligenciado.

Manejo no horário certo. Apartação, vacinação, embarque e trato pesado no meio do dia somam estresse térmico e estresse de manejo. Deslocar essas atividades para antes das 9h muda o resultado sem custar nada.

Genética. Em regiões quentes, características de adaptação — pelame curto e claro, pigmentação, capacidade de sudorese — deixam de ser detalhe e viram critério de seleção.

Comece medindo

A recomendação mais útil é também a mais simples: registre. Um datalogger de temperatura e umidade em um ponto de sol e outro na sombra, ao longo de uma estação quente, revela quantas horas por dia o rebanho passa acima do limiar de conforto. Esse número costuma surpreender — e transforma uma percepção vaga (“aqui é quente”) em um diagnóstico com o qual dá para tomar decisão de investimento.

Ambiência não é luxo nem pauta de bem-estar desconectada de produção. É a variável que determina quanto do potencial genético e nutricional do rebanho vai efetivamente virar produto.

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